As últimas palavras ditas por ele entraram em meu ouvido feitas tsunami. Cada sílaba pronunciada pelas suas cordas vocais, me deixaram fora de si.
“Do que estou reclamando?” pensava. Eu que havia o procurado, corrido atrás e implorado por mais uma chance. A última dessa vez. Porque, se todo aquele amor dito fosse verdade, eu precisava insistir de novo e, de novo. Acender a nossa vela.
Agente sempre acha que sabe de tudo, que é a dona da verdade. E por acreditar nessa mentira, acabamos iludindo nós mesmos. De graça.
O que havia acontecido exatamente, não sei dizer. Apenas senti um turbilhão de sentimentos que estava me levando a óbito.
Todos os dias, antes de dormir, agradeço a Deus, por ter sido tão forte, ultimamente. Há pessoas que em situações parecidas sofrem um bocado. Eu imagino como horrível deve ser.
Felizmente as minhas características passam longe disso. No comecinho, as palavras somem, e não há maneiras para explicar como meu corpo reage. Mas isso ocorre apenas no início, entende?
Depois, quando as coisas voltam à sua normalidade de sempre, eu me levanto como se nada houvesse acontecido.
Igual ontem. Joguei meu celular dentro da privada, apertei a descarga e, pressionei o botão do rádio. Aumentei o volume, deixando que os versos de Armandinho invadissem aquele apartamento. Liguei o chuveiro e deixei que a pressão da água, acalmasse meu subconsciente. E com a maior leveza do mundo, massageei meu cabelos, em sinônimo de consolo. Humpt!
Me enxuguei e comecei a seca-los fio a fio. Aquele ventinho quente do secador me deixava em êxtase. Ah, delícia!
Escolhi um vestido tubinho, bem justo. Daqueles que aumenta o peito e achata a bunda. Coloquei uma sandália de salto alto, que não usava há séculos. Delineador mais rímel. Batom vermelho, é claro. Olhei-me no espelho e senti a necessidade dos meus brincos de argola. Escovei meus cabelos para trás e lembrei que tinha esquecido da fita crepe, na ponto interna do vestido. Truque antigo, para ele não subir e deixar a minha calcinha a mostra.
Mas uma vez, encarei aquela mulher de frente ao espelho. Gata. Ela estava realmente gata, por sinal. Sexy. Qualquer homem que a visse, ficaria doido.
Tac tac tac. Era o barulho que meus saltos faziam, na pequena viela em que atravessava.
Os marmanjos soltavam piadinhas bestas e cantadas ridículas, daquelas que encontramos em sites de relacionamento. Apesar de tudo, estava gostando. Ter o desejo dos homens seria o meu troco.
A comunidade estava cheia e todos desciam os morros da favela, para comemorar a chegada de um novo ano.
Só fui perceber que havia quebrado a promessa de não enjerir álcool, quando me encontrei no meio de uma rodinha, descendo até o chão.
Em outras situações, aquilo seria a gota da água, para que minha vó se convencesse a me levar de vez a um psicólogo. Bem, ela não estava ali e não precisaria me preocupar. Eu estava me permitindo. Não de uma maneira extremamente correta, mas à minha maneira. E era que isso que importava.
Descalça e com dores no calcanhar, resolvi que era melhor eu sentar e acalmar os ânimos, antes que o inesperado viesse a acontecer.
Puxei uma cadeira para apoiar a minha perna e, sorri involuntariamente ao escutar algumas crianças comentando baixinho, o quanto estava bonita. Pois é, apesar de estar toda suada e desajeitada, eu ainda estava bonita.
Agradeci surpresa ao elogio e sentei no chão, para brincar com elas. Telefone-sem-fio.
Antes de ir embora, deixei no ouvido de um garotinho a palavra “esperança”.
Juntei as minhas sandálias, tomei o último gole do copo e fui embora.
Cheguei em casa e acariciei minha lebre, de estimação.
Dei-a um beijinho de boa noite e caí na cama, para aguardar a chegada de um novo ciclo.
É, feliz ano novo!


